Estimulação Cerebral Profunda em inglês significa Deep Brain Stimulation, por isso também é conhecida como “DBS”. Ela consiste em uma técnica que através de um dispositivo chamado neuro-estimulador (chamado também de gerador ou bateria) entrega uma corrente elétrica a determinadas áreas cerebrais envolvidas no controle do movimento. Semelhante a um marca-passo cardíaco, o gerador é implantado embaixo da pele, na região do tórax, bem próximo à clavícula. Essa corrente modifica e modula o sinal elétrico desorganizado que provoca a distonia, levando ao alívio dos movimentos involuntários.
Através de um cabo de extensão, o neuro-estimulador é conectado aos eletrodos que farão a estimulação elétrica cerebral propriamente dita. Todo este sistema é implantado no corpo do paciente.
O neuro-estimulador é uma “bateria” metálica de cerca de 5cm de diâmetro e 1,3cm de espessura. Ele produz os impulsos elétricos necessários para a estimulação. Quando a bateria chega próxima de seu fim, se troca apenas o neuro-estimulador (o cabo e o eletrodo se mantêm), ou seja, não é necessário realizar procedimento no cérebro novamente, sendo, portanto, uma cirurgia de menor proporção. O tempo de duração da bateria varia de acordo com cada paciente, levando em consideração o tipo e intensidade da estimulação necessária para obter a melhora dos sintomas. Geralmente a duração da bateria varia de 3-6 anos, porém este tempo pode variar.
A Estimulação Cerebral Profunda (ECP) é indicada para alguns distúrbios do movimento. No Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, ela é indicada principalmente para alguns casos de Doença de Parkinson, Distonia e tremor essencial. Recentemente a ECP está indicada também a outras doenças como algumas doenças psiquiátricas (depressão, transtorno obsessivo-compulsivo) e outros tipos de movimentos involuntários (como tiques e Síndrome de Tourette).
Na distonia, a cirurgia pode estar indicada se seus medicamentos e/ou outras estratégicas de tratamento como a aplicação da Toxina Botulínica não foram suficientemente capazes de aliviar os sintomas motores da Distonia, como contraturas musculares dolorosas e movimentos que possam estar gerando deformidades e incapacidade dificultando suas atividades do dia-a-dia. Em outras palavras: a cirurgia de ECP é indicada em pacientes com distonia que já tentaram tratamento medicamentoso e toxina botulínica, sendo que mesmo assim, permaneceram com importante comprometimento da função motora e da qualidade de vida.
Os resultados da cirurgia dependem da região de localização da sua distonia, bem como do tipo e causa da mesma. Por esse motivo é de extrema importância a avaliação com nossa equipe multidisciplinar especializada.
A Estimulação Cerebral Profunda tem como objetivo melhorar o tremor, a rigidez, a lentidão dos movimentos, as discinesias e as flutuações motoras ao longo do dia. Quando as principais queixas do paciente são quedas, desequilíbrio, dificuldade na fala e esquecimentos, a cirurgia não deve ser considerada.
Para a distonia, o neurologista e o neurocirurgião podem, em conjunto, geralmente escolher entre dois núcleos possíveis: o globo pálido interno (GPi) ou o núcleo subtalâmico (NST). Elas fazem parte dos núcleos da base, conjunto de estruturas implicadas no controle do movimento e que não funcionam normalmente no contexto de uma distonia.
Estimulação uni ou bilateral?
Depende. Se sua distonia é generalizada (acomete o tronco/ membros) ou cervical, geralmente estimulamos os dois lados do cérebro, com um eletrodo em cada hemisfério cerebral (direito e esquerdo). Se a sua distonia é focal e só está em um lado do corpo, sua estimulação poderá ser unilateral, estimulando-se a estrutura do lado contralateral ao seu sintoma (por exemplo, se você apresenta uma distonia focal da mão esquerda, estimularíamos estruturas do lado direito do cérebro).
Os resultados da cirurgia são variáveis de um paciente para outro, variando de melhoras sutis a melhoras muito significativas. É razoável esperar um benefício para sua qualidade de vida. Você pode esperar uma melhora dos movimentos e posturas distônicas e uma diminuição da dor relacionada à distonia.
Seu médico pode modificar a estimulação de várias maneiras a fim de melhorar seu conforto e obter melhores resultados. O neuro-estimulador é programável e permite a escolha de parâmetros para melhores resultados, evitando-se efeitos colaterais secundários indesejáveis da estimulação. Se eles ocorrerem, são reversíveis através da diminuição ou suspensão da estimulação.
Sempre fazemos todos esforços para minimizar riscos decorrentes da cirurgia e da estimulação do cérebro. Infelizmente, às vezes complicações podem ocorrer. Além dos riscos gerais inerentes de procedimentos cirúrgicos e anestesia em geral, outras complicações podem ocorrer:
- Sangramentos (hemorragias) no cérebro que podem gerar um acidente vascular cerebral com sintomas que variam de fraqueza/paralisia, alteração da sensibilidade, alterações visuais (visão dupla, entre outras), alterações da fala, distúrbios da consciência, cognição e coma, muito raramente morte. O risco dessas complicações aumenta com a idade. O risco geral em estudos com grande casuística é de 0,5%.
- Infecção: neste caso, ocasionalmente é necessária a retirada de todo ou parte do aparelho implantado e tratamento com antibiótico pode ser necessário. Algumas infecções como a meningite e o abscesso cerebral também pode levar a risco de vida. O risco de infecção varia em torno de 2 a 5% dos procedimentos.
- Crises de epilepsia/convulsão – são raras.
- Estado de sonolência pós-operatória, confusão ou alucinações – são raras. Períodos de confusão após a cirurgia podem ocorrer em alguns pacientes, principalmente com mais idade, e são reversíveis. Mesmo assim a incidência é baixa.
Riscos relacionados ao material implantado:
- Problemas mecânicos ou elétricos podem levar a interrupção da ECP. Por exemplo, o eletrodo ou o cabo de extensão podem se romper ou certos componentes do sistema podem necessitar serem trocados. Consequentemente, uma nova intervenção cirúrgica pode ser necessária;
- Dores persistentes ou acúmulo de líquido (higroma) na região do neuro-estimulador ou do cabo. Eles podem se deslocar ou erodir a pele, podendo levar a infecção e a sequelas. Uma nova intervenção cirúrgica pode ser necessária;
- Reação inflamatória com inchaço e rubor local;
- Migração ou deslocamento do eletrodo no cérebro.
Riscos que podem ocorrer pela estimulação:
- A eficácia e/ou o conforto da estimulação pode se alterar com o tempo;
- Parestesias persistentes (formigamento) nos membros e face;
- Problemas de expressão oral como a disartria (dificuldade de articulação e modificação da fala);
- Desequilíbrio;
- Tontura, vertigem;
- Problemas motores como alteração do tônus muscular e movimentos anormais involuntários;
- Problemas sensitivos (diminuição da capacidade sensorial, dormência);
- Dificuldade de atenção e de reconhecimento visual;
- Problemas visuais como flashes visuais, problema da movimentação dos olhos e perda de campo visual;
- Piora temporária dos sintomas quando é suspensa a estimulação, chamado de “fenômeno de rebote”;
A maior parte desses efeitos colaterais podem ser controlados, através do ajuste dos parâmetros da estimulação ou recomeçando o funcionamento do sistema. Após a cirurgia, diversas consultas para regular o aparelho serão realizadas, o que permitirá achar os melhores parâmetros de estimulação para seu caso, com o maior benefício e a menos efeitos colaterais possíveis. Durante essas sessões de ajuste do aparelho, alguns efeitos colaterais temporários (descritos acima) podem ocorrer. O eletrodo pode se manter implantado por tempo indeterminado, a menos que haja um problema, ele não necessita ser retirado.
Seu hospital e seu médico estão prontos para tratar as complicações e/ou lesões eventuais.