Estimulação Cerebral
Profunda – Tremor Essencial

O que é a cirurgia de Estimulação Cerebral Profunda?

A Estimulação Cerebral Profunda é uma cirurgia realizada para melhorar os sintomas da doença de Parkinson, Distonias, alguns tipos de tremores (em especial o Tremor Essencial), Gilles de la Tourette, entre outras doenças neuropsiquiátricas. Ela consiste na colocação de eletrodos em uma pequena região do cérebro afetada por uma determinada doença.

No Tremor Essencial, geralmente, o eletrodo é colocado no núcleo ventralis intermedius (VIM) do tálamo, uma pequena estrutura localizada na região central do cérebro. Esse núcleo está envolvido na nossa movimentação, em especial no controle da velocidade e da precisão dos movimentos. A Estimulação Cerebral Profunda tem a capacidade de modificar o funcionamento desse núcleo através de pequenos impulsos elétricos, restaurando o seu funcionamento e aliviando o tremor.

Do que é composto o sistema de Estimulação Cerebral Profunda?

O sistema de Estimulação Cerebral Profunda é composto por 3 partes principais:

O eletrodo de estimulação: fica no interior do cérebro e é responsável por estimular o alvo determinado (VIM talâmico, no caso do Tremor Essencial); Representado pelos números 1 e 2 na figura abaixo.
O cabo de conexão: conecta o neuroestimulador ao eletrodo de estimulação, e se localiza embaixo da pele. Representado pelo número 3 na figura abaixo.
O neuroestimulador: gera a energia para todo o sistema, funcionando como um marca-passo. Ele fica embaixo da pele, geralmente na região torácica. Representado pelo número 4 na figura abaixo.

A técnica de Estimulação Cerebral Profunda existe há mais de 30 anos para o tratamento da doença de Parkinson, alguns tipos de tremores e distonia.
Hoje em dia, mais de 200.000 pacientes já realizaram a cirurgia ao redor do mundo.

O Tremor Essencial é uma doença bastante prevalente, acometendo cerca de 1% da população mundial (4,6% se considerarmos somente a população idosa – indivíduos com mais de 65 anos). Apesar de poder ser facilmente controlado em alguns casos, em outros pode ser bastante incapacitante.

O Tremor Essencial, assim como a Doença de Parkinson, tem algumas medicações que podem ser usadas como tratamento inicial. Nesse caso, as drogas de primeira escolha são o Propranolol e a Primidona.

Para aqueles pacientes com tremor grave e refratário ao tratamento medicamentoso, existe a possibilidade do tratamento cirúrgico.

O tremor é considerado refratário quando não melhora o suficiente com ambos os medicamentos de primeira linha na maior dose tolerada (em monoterapia e em associação), e pelo menos um remédio de segunda linha (Topiramato, Gabapentina, benzodiazepínicos, outros betabloqueadores, etc). Por isso, é importante que, sempre que possível, o paciente faça o acompanhamento médico com um neurologista clínico especialista em distúrbios do movimento.
A cirurgia é indicada quando o tremor é grave e incapacitante, prejudicando as atividades manuais do paciente, e quando as expectativas quanto ao resultado do procedimento estejam alinhadas com a realidade.

Não existe uma idade limite para a indicação cirúrgica, mas algumas fontes excluem pacientes com mais de 75 anos. Como a doença é mais prevalente na população idosa, é importante levar em conta outras doenças que o paciente tenha para avaliação do risco cirúrgico, e também realização de uma ressonância magnética de crânio para avaliar a existência de lesões. Outros fatores que impossibilitam a cirurgia são demência e doença psiquiátrica grave ou não controlada.

Vários estudos científicos mostram que a estimulação cerebral profunda no VIM é efetiva para o controle do tremor, e que esse benefício dura por vários anos após a cirurgia. Nos membros superiores (braços e mãos), a média de melhora chega a ser de 70% em 12 meses. Há uma variação nos estudos em relação ao tremor da cabeça, não havendo melhora em alguns e chegando a apresentar benefício em 71% dos pacientes em outros estudos. A eficácia para o tremor vocal (tremor da fala) tende a ser baixa, e caso essa seja a principal queixa do paciente, devemos avaliar a indicação cirúrgica com cautela.

Ao longo do tempo, os efeitos da estimulação podem diminuir gradativamente. Acredita-se que essa perda de eficácia esteja principalmente relacionada à progressão da doença. Outro fator que pode contribuir para essa diminuição de benefício é a tolerância a estimulação prolongada, observada em alguns pacientes. Existem atualmente várias estratégias de estimulação que tem como objetivo diminuir essa tolerância e prolongar o efeito benéfico.

Há uma melhora global entre 56-85% nos primeiro 5 a 6 anos após a cirurgia. Um estudo demonstrou queda da eficácia após cerca de 6 anos, se tornando inferior a 50%, mas ainda com melhora significativa se comparado com o tremor antes da cirurgia. Outros estudos demonstram eficácia em torno de 48% após 10 anos da cirurgia.

O paciente em média permanece internado por cerca de 3 a 4 dias. No dia da cirurgia, é realizado um exame de tomografia do crânio após ser colocado o aparelho de estereotaxia, que é um halo ao redor da cabeça que ajudará o neurocirurgião a manter a cabeça estável durante todo o procedimento.

No centro cirúrgico é cortada parte do cabelo e é feita uma limpeza detalhada do local da cirurgia, para evitar infecção. A etapa de colocação dos eletrodos é realizada com o paciente acordado. Esse processo é fundamental, pois é necessário que o médico avalie o tremor durante a cirurgia, para garantir o posicionamento preciso dos eletrodos. Durante a introdução do eletrodo, o paciente é periodicamente orientado a esticar os braços, a realizar alguns movimentos, a repetir algumas frases, além outros testes simples. Conforme discutido, são colocados 2 eletrodos, um de cada lado do cérebro. O tempo total desse processo é em torno de 3 horas.

Vale lembrar que a incisão na pele é feita com anestesia local, e a introdução dos eletrodos não causa dor ao paciente.

Após a colocação dos eletrodos, sob anestesia geral (ou seja, o paciente estará dormindo), o neuroestimulador (semelhante a um marca-passo cardíaco) é implantado embaixo da pele logo abaixo da clavícula, em um dos lados da região peitoral, sendo necessária uma incisão de cerca de 7 cm. As conexões entre o gerador (marca-passo) e os eletrodos cerebrais são inseridas por baixo da pele com um trajeto por trás da orelha, parte lateral do pescoço, sem prejuízos estéticos.

Após a cirurgia, o paciente permanece cerca de 2 dias internado para observação e administração de antibióticos, recebendo alta a seguir.

Durante a introdução dos eletrodos, o paciente permanece acordado. Isso permite que o tremor seja melhor avaliado, o que auxilia na colocação precisa do eletrodo.

As primeiras cirurgias de Estimulação Cerebral Profunda começaram em 1987, e, nesses vários anos, avanços cirúrgicos foram feitos para melhorar a sua eficácia e reduzir os seus riscos. Mesmo assim, em alguns casos, podem ocorrer complicações, e o paciente e os familiares devem estar cientes deles.

Efeitos colaterais e riscos potenciais

– Há a possibilidade (cerca de 5%) de infecção de couro cabeludo ou pele nos locais de manipulação cirúrgica e das membranas de envolvem o cérebro (meningites não contagiosas – risco menor que 1%), que devem ser tratadas com antibiótico e podem prolongar a internação.

– Possibilidade de complicação durante a anestesia local ou geral relacionadas a alergias não conhecidas ou reações imprevisíveis aos anestésicos de uso rotineiro.

– Disfunções neurológicas temporárias não relacionadas à hemorragia, como perda de força em um lado do corpo, alterações da fala, confusão mental e desorientação no tempo e espaço no período após a cirurgia podem ocorrer em uma pequena parcela dos casos.

– Edema na face ou na fronte relacionados à fixação do aparelho estereotáxico ocorrem em 90% dos casos, e são transitórios.

– Desconforto temporário relacionado à fixação dos pinos (sob anestesia local) do aparelho de localização de regiões-alvo do cérebro (aparelho estereotáxico) à cabeça.

– Riscos de hemorragia cerebral (0,9 a 2%) com possível prejuízo parcial ou total de funções cerebrais como movimentação do corpo, fala e movimento dos olhos.

– O risco de morte relacionados a procedimentos similares é de 0,5% das operações.

A cirurgia de Estimulação Cerebral Profunda não é isenta de riscos. Portanto, em cada caso deve ser discutido detalhadamente os riscos e benefícios do procedimento entre o paciente, a família, e a equipe médica.

Cerca de 1 a 2 semanas após a cirurgia, o médico neurologista inicia a estimulação através de um dispositivo programador, que é colocado em contato com a pele do paciente, próximo ao neuroestimulador (alguns dispositivos permitem o ajuste a distância de alguns metros). O programador possibilita a regulagem adequada da energia liberada pelo estimulador sobre o VIM talâmico. Esse processo de programação, em geral, é lento, e requer algumas visitas dos pacientes ao neurologista, pois assim como a maioria das medicações, a estimulação deve ser ajustada aos poucos.

Em cada visita, são feitos testes clínicos e ajustes da estimulação, com o objetivo de aliviar os sintomas. Ao mesmo tempo, são feitos ajustes nas medicações. Embora geralmente haja redução das medicações, é importante ressaltar que alguns pacientes mantêm o uso dos remédios após a cirurgia.

Durante a programação do estimulador podem surgir efeitos colaterais indesejados, como formigamento em membros, contrações musculares, dificuldade de fala, perda da coordenação e desequilíbrio. Com o a mudança da estimulação pelo médico, esses sintomas podem ser resolvidos. Esse é um dos motivos pelo qual o processo de ajuste da estimulação deve ser lento e gradual.

A bateria do neuroestimulador em média tem duração de 3 a 5 anos, sendo necessário a troca após esse período. Apenas o neuroestimulador é trocado, não sendo alterado o eletrodo de estimulação. Alguns aparelhos são recarregáveis, e nesses casos o paciente recebe orientações de como recarregar a sua bateria em sua casa a não precisa trocar a cada 3-5 anos. Os geradores recarregáveis duram em média 15 a 20 anos, quando devem ser trocados.

Após a cirurgia o paciente deve fazer visitas periódicas ao neurologista, principalmente nos primeiros 3 meses. Embora geralmente, ocorra redução parcial das medicações após a cirurgia, o tratamento medicamentoso sempre continuará a ser feito e ajustado.

Procedimentos que podem ser feitos após a cirurgia:

– Uso de aparelhos elétricos (micro-ondas, celular, computador)
– Cortar o cabelo (após cicatrização)
– Dirigir
– Utilizar transporte público
– Esportes (natação, fisioterapia, caminhada)
– Exames médicos (ecografia, radiografia, mamografia, tomografia)

Procedimentos que podem ser feitos após a cirurgia com precaução:

– Manipular aparelhos com imãs
– Passar em portas magnéticas de lojas
– Esportes com contato – usar proteção
– Andar de bicicleta – usar capacete
– Ressonância (apenas com orientação da equipe)

Procedimentos que não podem ser feitos após a cirurgia:

– Passar em portas magnéticas em aeroportos e bancos
– Soldagem
– Bronzeamento artificial
– Esportes com muito contato
– Mergulho profundo
– Bisturi elétrico monopolar próximo a região do neuroestimulador


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